Foto: Santuário de Fátima.
Semana dos Seminários 2026 | Mensagem do Reitor do Seminário Diocesano
Os Evangelhos dizem-nos, muitas vezes, que Jesus caminhava. Com os pés e com o coração. Percorreu caminhos, cruzou-Se com vidas, escutou existências a dizerem-se em lamentos, em dúvidas e interrogações, em reivindicações e provocações, em medos e temores, em súplicas e explosões de alegria.
A sua palavra sobressaiu entre todos os ruídos ou burburinhos e altercações, o seu gesto genuíno fez imobilizar os mais distraídos e interrogou as tentadas teatralidades contextuais, a autenticidade e beleza da sua vida provocaram em muitos a releitura das opções, a unidade e harmonia da sua vida cativaram, fizeram escutar os anseios profundos do coração, sinalizaram como e por onde responder à ânsia humana da felicidade.
E seguindo-O, ao longe ou de perto, procurando tocá-l’O no seu mistério ou, ao menos, nas suas vestes, experimentando que d’Ele saía uma força que a todos reequilibrava e sarava, muito, tantos, foram percebendo que Jesus Se retirava para rezar. Não abraçava para esmagar, mas para fazer sentir a presença de Deus; não pregava para prender a Si, mas para levar ao encontro com Deus; não curava para ser aplaudido, mas para concretizar que a humanidade é o caminho de Deus que a quer salvar.
E a Cruz? Que eternidade estava escondida naquele curto tempo! Parecia o fim e, afinal, era a grande revelação do segredo da sua vida. Todo e tudo dom. Que força estava contida naquela aparente vulnerabilidade! Que excesso de amor foi capaz de derrotar o ódio na sua raiz e sair ressuscitado dos lugares da morte! Que impressão … que inquietação … lavar os pés a uns quantos e dizer-lhes “ide agora e fazei o mesmo”, e dizer-lhes mais … “tomai e comei, alimentai-vos de Mim” e assegurar-lhes “Estarei sempre convosco”!
E é então que tudo muda. Cristo, Jesus Cristo, o Filho de Deus, não quer só admiradores. Quer discípulos! Chama discípulos. E discípulos que, de tão unidos ao Mestre, testemunham com a mesma liberdade, ousadia e autenticidade a vida de Jesus. Rezam, partem da oração, essa certeza serena de se saber amado e acompanhado por Deus. Não o fazem para receber a ovação de serem especiais, mas porque o amor de Cristo os impele e os envia. Chamados por Cristo não saberiam viver de outra forma. Que desafio real contém a imaginação espiritual do que o Senhor pode fazer connosco quando lhe respondemos e com Ele dialogamos o nosso crescimento.
Estamos a celebrar a Semana dos Seminários. E o Seminário é a continuidade daquela comunidade de discípulos que, depois de ter tocado Jesus no seu mistério, aguarda e anseia o dom do Espírito de Cristo para a missão. "Esperar transforma o tempo em eternidade", escreve Simone Weil.
Cristo usou uma pedagogia à nossa medida: interrogou, fez perguntas; repetiu, insistiu nas mesmas questões de diversas formas e por diversos caminhos; usou imagens e sinais, sugeriu para que cada um descobrisse; fez Ele mesmo, ensinou pelo exemplo; prestou uma especial atenção aos que chamou, tudo lhes explicou; a “escola” foi a própria vida da humanidade; o modelo de formação, a simplicidade dos pequenos, uma criança. E aos que aceitaram ser seus discípulos, quatro prioridades: ter um só Mestre e rezar; segui-l’O decididamente; renunciar ao que os afectos, às vezes, agarram e não interessa mas entretém muito; pegar na Cruz e levá-la!
O lema da Semana dos Seminários deste 2026 diz que “Comunidade que reza, Seminário que floresce”. Não imagino se quem o definiu quis sinalizar que os Seminários se esvaziam quando as Comunidades não rezam. Mas aceito que sim. E sei que a oração é o lugar onde aprendemos a confiar em Deus. Onde O escutamos e percebemos a sua providência. Onde nos podemos dizer e experimentamos o seu amor. Onde nos podemos purificar e experimentamos a sua misericórdia.
Então, nas nossas Comunidades, temos de rezar para encontrar centralidade de tudo o que fazemos; rezar para alimentar a fé; rezar para discernir os caminhos de Deus; rezar para purificar a vida; rezar para contemplar os sinais de Deus na vida e no mundo; rezar para perceber, aprofundar e vivenciar a fraternidade; rezar para ter um olhar limpo, puro e de esperança; rezar para entender que fechado em mim mesmo só estrago; rezar para discernir a vontade de Deus. E não há medo que se sobreponha à confiança em Deus que a oração nos dá. Não rezar só agrava a indecisão. “Vinde! E eles, deixando tudo, seguiram-n’O”. Só podiam.
p. Emanuel Matos Silva, reitor do Seminário Diocesano

