Semana dos Seminrios 2017

Mensagem do Reitor do Seminrio Diocesano

Novamente, mais uma vez em Igreja, a Semana dos Seminários. Sob o tema “Fazei os que Ele vos disser” (Jo 2, 5), somos novamente desafiados a tomar consciência do lugar incontornável dos Seminários na formação dos futuros padres. E se formar (que é sempre diferente de “enformar”) é uma experiência da vida inteira, o momento da ‘formação inicial’ ocupa um lugar de importância incontornável na vida e acção da Igreja pelo que deixa no perfil cristão dos futuros padres. É que o Seminário não pretende preparar apenas para reagir a situações pontuais; o Seminário tenta preparar para saber reagir à vida, com todas as suas manifestações sem excepção, a parir da identidade cristã vivida como experiência de harmonia.

 

"o Seminário tenta preparar para saber reagir à vida"

 

Ao contrário de um afunilamento de comportamentos e procedimentos, o Seminário promove a personalização da vocação cristã e a integração comunitária na Igreja. Ser discípulo para um dia saber ser pastor. Só sabe ser pai quem aprendeu a ser filho. Longe, pois, de uma simples aprendizagem de conceitos, o Seminário constrói-se como exercício pessoal e comunitário da vocação (Fazer o que Deus chamou a fazer). Por isso o alicerce da fé e da vocação, por isso a oração, por isso as crises do crescimento, por isso o discernimento, por isso o acompanhamento, a vida espiritual, o estudo, as diversas dinâmicas onde se ampliam e harmonizam capacidades, o acerto disciplinar, as provas e provações. É a sensatez e prudência de fazer das fragilidades e dos talentos uma experiência de crescimento Por isso a felicidade encontrada de “ser todo, inteiro” de Deus e da Igreja.

Há já vários anos que a nossa Diocese integrou os seus Seminaristas nos Seminários de outras Dioceses. Actualmente fazem o percurso de formação, nas suas diferentes fases, na Diocese de Lisboa. O Diogo, de Pedrógão Pequeno faz o Tempo Propedêutico no Seminário de Caparide; o Diogo, de Gavião, e o André, de Nisa, fazem a sua caminhada no Seminário dos Olivais. Isso não significa, contudo, que tenhamos deixado de ter Seminário diocesano. Temos e, com mais ou menos Seminaristas, tem identidade, lugar e vida na nossa Diocese.


"O Diogo, de Pedrógão Pequeno faz o Tempo Propedêutico no Seminário de Caparide; o Diogo, de Gavião, e o André, de Nisa, fazem a sua caminhada no Seminário dos Olivais. "

Por muitos motivos, despovoamento, desertificação e migração entre eles, confrontamo-nos com a desproporção entre a vastidão do trabalho pastoral, o esforço de Sacerdotes/Comunidades, e o pequeno número de jovens em caminhada de discernimento vocacional em ordem ao Sacerdócio.

Juntemos, contudo, aos motivos apontados também uma espécie de “revolução auto-infligida” que, mesmo involuntariamente, foi silenciando o tema vocacional nas nossas comunidades, nas nossas catequeses, nas nossas celebrações, na nossa oração comunitária, no nosso entusiasmo e alegria pastoral.

Não foi mal deixarmo-nos desafiar a pensar mesmo que isso ponha em causa as nossas seguranças de séculos e de estruturas. Há tanto para pensar, discernir, rezar. A oportunidade de reflexão intelectualmente honesta reforça o nosso acesso e ligação à verdade humana e às suas possibilidades livres mas, amorosa e harmoniosamente, assumidas. Quer queiramos, quer não, o mundo avança. E depende de nós que avance connosco ou sendo-nos ostensivamente indiferente.

O que, vocacionalmente, já não foi propriamente bom, foi o facto de nos termos permitido sermos “por nós e contra nós” ao mesmo tempo. Indefinimo-nos. Sermos por nós nas estruturas usufruídas e sermos contra nós nas opiniões afasta-nos da autêntica existência humana que somos chamados a servir e na qual somos chamados a ser sinal.

Pensarmo-nos contra nós faz ressaltar a imagem de uma orquestra onde, em vez da finalidade da conjugação da diferença para chegar à harmonia final (um verdadeiro percurso de conversão e crescimento), os músicos e instrumentos tocam uns contra os outros. Uma orquestra desafinada não tem necessidade de um público muito exigente para estragar a sua reputação musical. Ela própria, orquestra, faz tudo sozinha! E a desgraça, que não é apenas de bilheteira, é uma experiência conseguida.

Somos uma Comunidade, não somos um bloco monolítico. Mas, às nossas Comunidades, às nossas Paróquias, aos nossos Conselhos e Organismos, aos nossos Movimentos, às nossas Catequeses, aos nossos Secretariados, aos nossos serviços, à nossa vida pessoal faz falta a capacidade de sentir com a Igreja o lugar e a identidade das diversas vocações. Nomeadamente a vocação Sacerdotal.

"Talvez o principal adversário resida na incapacidade pessoal e comunitária para comungar os projectos alheios."

Talvez o principal adversário da Igreja hoje não seja o confronto que um ou outro pensamento “exterior” lhe faça. Talvez o principal adversário resida na incapacidade pessoal e comunitária para comungar os projectos alheios. Uma espécie de incapacidade de sair de si e das suas certezas, ao nível da incapacidade para a comunhão, para a experiência de “sentir com a Igreja”, de sentir com a Comunidade.

Estamos a viver a Semana dos Seminários. “Fazei tudo o que Ele vos disser”(Jo 2, 5) é o lema. O convite é para os Seminaristas, para os Seminários. Mas também é para as Comunidades cristãs. Hão-de ser o lugar e o tempo da primeira curiosidade vocacional. Quando, em vez de santos, quisermos apenas ser heróis, estragamos tudo.

A comunhão eclesial, o desenvolvimento de capacidades para o apostolado, o realismo, o equilíbrio da relação humana e com a vida, a maturidade humana e espiritual, a capacidade de serviço, a humildade amadurecida, a felicidade de sentir com a Igreja, a alegria de servir o Povo de Deus são algumas das formas de fazer o que Jesus nos mandou. E são o que constitui a experiência do Seminário, um tempo provisório para uma dedicação e entrega definitivas. Rezemos pelos Seminários e rezemos para que, nas nossas Comunidades, possam surgir mais jovens que se deixem chamar a ser Padres.

 

Emanuel Matos Silva, padre

Reitor do Seminário Diocesano de Portalegre - Castelo Branco