"Acolher Amar e deixar-se Amar"

No dia 30 de Outubro, a convite do Ncleo da Amnistia Internacional de Estremoz, participmos na Sesso Pblica "O Direito a ter um lugar no Mundo".

 
 
Perante a preocupação com a situação dos refugiados, foi-nos pedido que falássemos sobre o Acolhimento que vimos fazendo com as pessoas que estão refugiadas em Portalegre.
Como sabem, no âmbito do Projecto “Língua, Cultura e Cidadania”, acolhemos na Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco, diariamente, muito concretamente, o Grupo RefugiALACER, e desenvolvemos, inclusive, várias actividades que ajudam na sua integração.
Assim, e de acordo com o solicitado, foi feita a abordagem que transcreveremos sobre Acolhimento, intitulada: “ACOLHEMOS: Sim, Não ou Talvez?”
Tratou-se de um momento que possibilitou, através de imagens de powerpoint, passado praticamente, em simultâneo, dar a conhecer as actividades já desenvolvidas, esclarecer algumas dúvidas e de permitir igualmente, uma reflexão sobre este tema.
Contudo, o momento mais importante e mais esperado, prendeu-se, sem dúvida, com a presença dos refugiados e com os testemunhos na primeira pessoa.
 
 
ACOLHEMOS: Sim, Não ou Talvez?
 
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, constituída por um preâmbulo e trinta artigos que enumeram os direitos humanos e as liberdades fundamentais de que são titulares, sem qualquer discriminação, todos os homens e mulheres de todo o mundo, afirma e pegando apenas nos artigos 1º, 3º e 14º 1: Artigo 1º “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”; contudo, constatamos que estes princípios são exercidos com plenitude apenas em pensamento, pois impera na sociedade actual uma imensa desigualdade; no Artigo 3º. ”Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” e notamos que a violência é cada vez maior, e que nunca, na história da humanidade, tais direitos foram tão desrespeitados e, passando ao Artigo 14.º 1”Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países”, mais uma vez, nos deparamos apenas com lindas teorias sobre os direitos fundamentais dos seres humanos, pois na prática, e falo muito concretamente dos refugiados, o que encontramos?
Infelizmente, multidões caminhando desesperadamente pelo mundo, e, que, na maior parte dos casos, são distribuídas por campos de refugiados em condições verdadeiramente desumanas, sem condições de segurança e de dignidade, por edifícios degradados, por países vários, e, inclusive, fazendo acordos com países que, tão pouco respeitam os Direitos Humanos, como aconteceu com a Turquia.
E, apesar de todos termos “o direito a um lugar no mundo” e Portugal ser um desses lugares, o que se passa, realmente, em matéria de acolhimento; como acolho?
Procurando uma definição de acolher, encontramos, de um modo geral, que se trata da acção ou efeito de acolher; da maneira de receber e de ser recebido; de hospitalidade; de lugar onde há segurança; abrigo, etc... etc...
Estas definições, todos nós, mais ou menos sabemos. Aliás, conhecemos estes e muitos outros conceitos, agora, passar, efectivamente, da teoria à prática, isso, sim, constitui, inexplicavelmente, um processo de “difícil” aplicação.
Diariamente, lidamos com as mais variadas situações, que, sem dúvida mereceriam, da nossa parte, um acolhimento; quase poderíamos dizer, especial, tendo em conta as diversas situações com que nos cruzamos, por vezes tão complexas e delicadas, e, os refugiados, são disso, um exemplo.
Contudo, insisto na pergunta: Acolhemos: Sim, Não ou Talvez?
Estamos, estaremos à altura daquilo, a que tanto o acolhimento como a integração requerem e exigem de cada um de nós, ou, tratamos estes dois passos tão essenciais para a vida das pessoas com alguma distância e ligeireza, por vezes, convencidos, até, de que se trata de processos com os quais sabemos lidar sem qualquer problema?
Portugal, ao longo da sua história sempre soube manter um contacto com o mundo e uma generosa abertura a outras gentes e .os portugueses, como sabem, temos fama de acolher bem, e, se isto se puder apelidar de “qualidade”, acreditem, ganhámos essa qualidade durante os anos em que, também nós, deixámos o nosso país e fomos acolhidos por outras pessoas; por outros países e, até por outros continentes.
Também, nessa altura, a língua foi uma barreira difícil de transpor; é claro, que, hoje, continuamos a partir, mas, já, com outra qualificação, e, embora a adaptação seja difícil, normalmente, dominamos a língua do país de acolhimento e aí, tudo fica mais próximo e até nos dá a sensação de que não somos assim tão diferentes.
Mas, se pensarmos um pouco, concluiremos de que até deveria ser muito fácil acolher e porquê?
Muito simplesmente, porque só acolhemos porque já fomos acolhidos; acolher é um acto de amor, começamos a ser acolhidos desde o nosso nascimento; no berço, pela família, pela escola, na universidade, pelos colegas, pelos amigos, e, mais tarde, pelos colegas de trabalho, pelos vizinhos e pelas pessoas com as quais nos vamos cruzando.
E, é assim, que, ao longo da nossa vida e em momentos bem distintos, mas todos eles muito importantes, passamos, nitidamente, o nosso tempo, neste binómio de acolher e ser acolhidos, quase se poderá dizer, sem darmos muito bem, por isso, porém, vamos treinando e desenvolvendo essa capacidade automaticamente.
Mas como somos pessoas, não poderemos agir eternamente como se de uma máquina se tratasse, livre de quaisquer sentimentos, por isso, no dia a dia, deveríamos questionar-nos e preocupar-nos em saber se acolhemos e que tipo de acolhimento vimos praticando.
E após essa reflexão, deveríamos, inclusive, poder dizer, com alguma satisfação que acolher é fácil, uma vez que acolher é amar, e, nós todos, temos essa capacidade ilimitada de amar, porém, se quisermos ser honestos, diremos, quase todos, que Acolher não é fácil.
Caros amigos(as) se achamos que não é fácil acolher quando se trata de pessoas que conhecemos e que comungam muitas vezes, dos mesmos ideais que nós, imaginem, como será acolher pessoas oriundas de outros continentes, com culturas e religiões bem variadas e tão diferentes das nossas.
Como tratar, então, a questão do acolhimento versus integração na beleza desta imensa diversidade?
Claro que, embora esteja a abordar, mais concretamente, o problema dos refugiados, o que a seguir vou dizer, será, sem dúvida, válido para todos, independentemente da sua situação, país, continente ou religião.
Um dos obstáculos com que nos deparamos, está, incompreensivelmente, ligado à dificuldade que nós temos em amar e em nos deixarmos amar.
Se acolher é amar, em primeiro lugar, não devemos ter medo de amar, por vezes, como sabem, somos verdadeiros muros humanos, impossíveis de transpor; não deixamos que cheguem a nós e negamos aos outros o direito a ter esse lugar no mundo.
E, ainda, como temos dito, várias vezes, e explicado no Manual de Boas Práticas, é fundamental:
• Aprender a Acolher (com profissionalismo mas com coração);

• Descobrir que todos são pessoas (têm nome, têm família);

• Respeitar as diferenças (culturais, religiosas, etc…etc...);

• Não julgar ou emitir opiniões sobre o que não sabemos bem ou desconhecemos;

• Não se colocar sempre nos degraus acima (como técnico/pessoas);

• Estar disponível a escutar;

• Não subestimar ninguém;

• Não esquecer que estamos perante pessoas fragilizadas a vários níveis;

• Gerar confiança;

• Partilhar conhecimentos/informações;

• Ter consciência de que situações complexas requerem muito “savoir-faire”;

• Pôr-se sempre no lugar do Outro.
Por fim, e pegando no pensamento de Benjamin Disraeli “Nascemos para amar. O amor é o princípio da existência e o seu único fim:” Então, não tenhamos medo, de nos deixarmos também amar, e de perceber que, quando amamos somos livres, pois, a essência do amor é a liberdade.”
 
 
Lamentavelmente, a partir de 2015, a União Europeia demonstrou uma certa instabilidade perante este fenómeno dos refugiados. Os Estados Membros estremeceram; apenas a Alemanha e a Suécia mostraram um pouco de abertura, contudo, foi sol de pouca dura, pois, logo a seguir assistimos à construção de muros, à colocação de vedações de arame farpado, e, ao aparecimento de grupos extremistas que quiseram, a todo o custo, convencer os governos a aplicar medidas mais duras em relação aos refugiados.
Num momento tão complicado em que milhares e milhares de pessoas estão privadas dos Direitos Humanos, e, tudo isto, perante a indiferença da Europa e do Mundo que teimam em ignorar o sofrimento e os dramas destas pessoas que vivem em condições desumanas, caminhando pelo mundo, quantas vezes, entregues a si próprias, ou à mercê de passadores sem escrúpulos, e ainda a viver em campos de refugiados que mais parecem campos de concentração, é super urgente uma mudança de consciências, de mentalidades e de modos de actuação, quanto à forma de acolher e de integrar, permitindo, inclusive, que o acesso aos países de acolhimento seja feito de forma segura e digna.
Assim, será crucial promover e defender a dignidade dessas pessoas, fazer com que os Direitos Humanos sejam respeitados, e, principalmente, porque essas pessoas vivem, também, nas nossas cidades, vilas e aldeias, é preciso que todos nós nos envolvamos e façamos parte desta missão tão importante, que passa, seguramente, por perceber e explicar aos que andam distraídos e aos que não sabem, que os refugiados, na riqueza da sua diversidade, são pessoas, como tu, como eu, como nós e que são bem vindos.
E, a terminar, gostaria de fazer dois apelos a todos(as):
1. Acolher é Amar! Por favor, não tenham medo de amar e de se deixarem amar!
2. Caros Amigos(as), se, o Mundo e a Comunidade Internacional continuam levantando as bandeiras da indiferença, fingindo, até, que não veem um problema tão dramático, complexo e com uma dimensão tão considerável, que, Estremoz, cidade com a alma alentejana que bem a caracteriza, sempre tão preocupada com o desrespeito pelos Direitos Humanos, continue a fiel guardiã desses valores e que as suas gentes, atentas às fragilidades destas periferias do arco-íris, não deixem, em momento algum, mesmo perante as maiores dificuldades, a resposta a estas pessoas, “soprando no vento”, pois, se existe ”O direito a ter um lugar no mundo”, saibamos que esse lugar, é, muitas vezes, o nosso coração.
Muito Obrigada!
 

Rufina Garcia