Caderno Sinodal

SNODO DIOCESANO " O DOM EST EM TI


EVANGELIZAO E IGREJA NO MUNDO

2011 " 2012



Convocados pelo nosso Bispo


“É assim que, com estes e outros desafios entre mãos, continuamos em busca de pistas de acção, agora através do Sínodo Diocesano, começando por pedir a colaboração de todos os de boa vontade para a escolha da temática a reflectir. Tendo-se adoptado uma estratégia de análise extensiva feita através de uma amostra aleatória simples em que foram distribuídos 75 mil inquéritos com aplicação de um questionário a preencher durante o mês de Maio passado próximo, foram recolhidos 15.414 desses inquéritos para medir a opinião dos diocesanos sobre os temas a reflectir durante a caminhada sinodal. Concluída a recolha, procedeu-se ao tratamento estatístico dos resultados, à análise factorial, à sua respectiva interpretação e à fixação da temática a abordar, respeitando a maior incidência das respostas ao Inquérito. Escolhidos os temas mais votados, a Comissão Pré-Sinodal, embora fiel à sondagem, inverteu a ordem e apontou como mais conveniente para este primeiro ano sinodal - “Evangelização e Igreja no mundo”.

Confiantes e implorando sempre o auxílio do Divino Espírito Santo, protagonista da evangelização, vamos partir, com humildade e coragem para ver, julgar e ousar novos caminhos de evangelização, atendendo à nossa realidade concreta, de pessoas concretas e com problemas concretos, dentro da qual somos chamados a incarnar e a viver hoje, com o encanto e a convicção dos missionários da primeira hora, o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo, que, mais do que programas e tarefa, é paixão e vida, despojamento e serviço, testemunho e diaconia libertadora, “a partir de Cristo, com Cristo, como Cristo” (…)

“Caros diocesanos, Presbíteros e Diáconos, Membros da Vida Consagrada e Agentes da Pastoral, todo o Povo de Deus: ao anunciar-vos que o Sínodo está em marcha, com os temas escolhidos, as Comissões indigitadas e outras iniciativas em vista, convoco-os a todos para que se insiram nesta caminhada de fé e de responsabilidade eclesial, com interesse, alegria e esperança. Não sois nem queremos que sejais mero objecto da nossa solicitude pastoral. Precisamos de vós tal como sois, isto é, “protagonistas e artífices da renovação da Igreja” Diocesana, escutando, participando na reflexão e no debate, fazendo circular ideias, tomando iniciativas que despertem e animem os mais distraídos ou alheios. Que ninguém fique à margem. Que os grupos de reflexão se multipliquem, manifestem presença e colaboração, façam chegar as suas reflexões e propostas para se elaborar o documento de trabalho para as Assembleias Sinodais.”

(D. Antonino Dias, da Homilia da convocatória, Sé de Portalegre, 05.Outubro.2011)

 


Somos Grupo Sinodal - Guia da Caminhada


1. Missão partilhada

Jesus rodeou-Se de discípulos. Escolheu o grupo especial dos Doze que O acompanharam, viram o que Ele fez, ouviram o que Ele ensinou. Após a sua ressurreição, confiou-lhes a missão de anunciarem e testemunharem o que viram e o que d’Ele ouviram. Enviou-os ao mundo e, por isso, são chamados ‘Apóstolos’. Deste modo, Jesus partilhou com os Doze a sua própria missão.

Os Apóstolos, como lemos sobretudo nas Cartas de S. Paulo, partilharam com outros discípulos a missão recebida de Jesus. A missão tornou-se cada vez mais visivelmente missão da Igreja, isto é, missão partilhada.

O II Concílio do Vaticano redescobriu esta perspectiva da missão: todos os discípulos de Jesus, cada qual a seu modo, devem tomar parte na missão que o Senhor confiou à sua Igreja.

Na hora actual, o Bispo da Igreja Particular ou diocese também partilha com outros discípulos do Senhor (com ministros ordenados, com ministros leigos, em serviços vários) a missão que lhe foi confiada. O Sínodo Diocesano é uma manifestação da responsabilidade partilhada na missão que é de todos os cristãos. É neste contexto que havemos de entender a convocação que o nosso Bispo a todos dirigiu no dia 05 de Outubro de 2011: vamos realizar o Sínodo Diocesano; participemos nos trabalhos do Sínodo.

2. O que é o Sínodo Diocesano?

É uma especial experiência do que é ser cristão e do que é ser membro da Igreja para o mundo: porque nos agrupamos; porque reflectimos em comum a vida da Igreja diocesana (a sua missão, as suas actividades pastorais, as dificuldades na sua concretização, os novos caminhos a abrir e a percorrer); porque queremos comprometer-nos com a vida da nossa Igreja e viver a nossa fé com autenticidade e verdade, em Igreja.

É um Conselho extraordinário e alargado que o Bispo convoca, no qual participam Padres, Diáconos, Religiosos, Religiosas e Leigos, aos quais quer ouvir e com os quais quer aconselhar-se sobre diferentes aspectos da vida da Igreja diocesana.

Na sua terceira fase, é uma assembleia (sinodal) de sacerdotes e de outros cristãos representativos de uma determinada Igreja Particular ou Diocese, convocada pelo seu Bispo, na qual se dialogam e aprovam as linhas de acção pastoral para o futuro imediato.

3. Para que é convocado o Sínodo Diocesano?

O Bispo convoca o Sínodo Diocesano, fundamentalmente, para ouvir o conselho dos outros membros da Igreja Particular ou Diocese, tendo em vista a fidelidade da sua Igreja à missão que Cristo lhe confiou. É preciso avaliar o que a nossa Igreja tem feito e projectar o que deve fazer e como o deve fazer na hora actual. É preciso renovar e promover a vida cristã de todos, propor soluções para os problemas que afectam a vida da nossa Igreja; sobretudo é preciso que esta Igreja seja fiel à missão que Cristo lhe confiou. O Bispo ouve especialmente o conselho daqueles que reflectem em Grupo Sinodal.

4. A importância do Grupo Sinodal

De certo modo, o Grupo Sinodal representa a Comunidade Paroquial. Através dele, chegam à Assembleia Sinodal as reflexões, as aspirações e as propostas de acção pastoral de cada Paróquia e de todas as Paróquias da Igreja Diocesana. Assim, a riqueza da Assembleia Sinodal será fruto do contributo dado pelos cristãos do Grupo Sinodal.
Por isso mesmo, o Grupo Sinodal tem de ser acompanhado e apoiado, permanentemente, pelo Pároco, que é o primeiro Responsável local da caminhada sinodal. Na medida do possível, o Pároco há-de ajudar a preparar cada reunião do Grupo Sinodal com o Animador e o Secretário e participar nas suas reuniões. Poderá chegar-se à conclusão de que é conveniente e necessário preparar os Animadores e Secretários dos Grupos Sinodais em reuniões específicas de âmbito supra-paroquial e até mesmo arciprestal.

5. A reunião do Grupo Sinodal

Para ser frutuosa, cada reunião deve:
* Ser preparada por todos os membros do Grupo, se bem que de modo especial pelo Animador e pelo Secretário;
* Proporcionar um clima de alegria cristã, de comunhão eclesial, de relações pessoais, de respeito pela opinião de cada um;
* Favorecer a participação activa, livre, consciente e empenhada de cada um;
* Centrar-se, sem desvios, no tema proposto;
* Seguir o esquema apontado pelo guião do caderno distribuído a cada um;
* Durar cerca de uma hora (se necessário, o tema pode ocupar mais que uma reunião);
* Ser marcada pela pontualidade, tanto no início como no encerramento, para o que todos devem conhecer o lugar, dia e hora em que se realiza.

6. Momentos da reunião do Grupo Sinodal

1º. Acolhimento
2º. Breve oração
3º Reflexão sobre o assunto proposto no caderno de temas
4º Elaboração de propostas de acção pastoral no futuro, a partir das perguntas para cada assunto ou tema
5º Oração Sinodal em comum ou cântico do Hino Sinodal ou outra oração ou cântico.

7. O que se pede ao Grupo Sinodal

Basicamente, quatro coisas: que o Grupo reflicta sobre os assuntos propostos no caderno distribuído; que faça uma breve síntese da sua reflexão; que elabore propostas concretas de acção pastoral para a diocese, relativas ao assunto reflectido; que envie em folha própria aquela síntese e estas propostas à Comissão Teológico-Pastoral. Este trabalho compete especialmente ao Animador do Grupo ou ao seu Secretário.


 


2011-2012: EVANGELIZAÇÃO E IGREJA NO MUNDO


1. Identidade e missão da Igreja: Povo de Deus, sacramento, comunhão

A Igreja é “Povo de Deus”, “Corpo de Cristo” e “Templo do Espírito”, a congregação e comunhão visível e invisível dos homens de boa vontade e dos filhos de Deus. Mais do que nunca, a Igreja deve pois sublinhar a distinção entre ela mesma, o Evangelho que anuncia e o Reino que inaugura.

Disse o II Concílio Vaticano que Cristo é a Luz dos Povos, mas que a Igreja é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e na unidade de todo o género humano (cf. Lumen Gentium, nº 1). Se Cristo é a Luz, então, de facto, a Igreja é Sacramento, sinal e instrumento dessa Luz (Plano de Salvação de Deus para toda a humanidade), ou seja, a Igreja serve-O, exprime-O, contém-n’O e torna-O presente, mas conjuntamente é toda relativa ao mistério. Significa que a Igreja é o Sacramento de Cristo para os homens.

A identidade e a missão (sacramentalidade) da Igreja não lhe vêm, portanto, de si mesma, mas de Cristo, a “Luz dos povos” que é necessário anunciar e à qual é necessário conduzir a humanidade.

Quando se fala da missão e da sacramentalidade da Igreja não se está a falar apenas de uma instituição que estaria encarregue de espalhar o Cristianismo e de aumentar o seu número de partidários. Fala-se sim de um povo que acolhe e manifesta a progressiva revelação de Deus. É o povo que Deus escolheu e congrega para partilhar a sua vida: aquilo que um dia Deus realizará com toda a humanidade está já a realizar em germe com a Igreja e na Igreja, comunidade da Aliança.

Então podemos dizer que a primeira coisa que Deus pede à sua Igreja é que, de facto, ela seja o seu Povo, comunidade daqueles que escutam a Palavra de Deus, comunidade que recebeu e aceitou o Evangelho e o continua a receber constantemente, comunidade marcada por uma procura constante de Deus e da realização da sua vontade.

Ser Povo de Deus significa ser a comunidade que celebra a Aliança com Deus: há escuta e há celebração, palavra e sacramento, memória e profecia. Mais particularmente é a comunidade dos baptizados que Deus congrega cada domingo em redor da sua Palavra e da sua Mesa de Eucaristia.

Ser Povo de Deus significa, não somente a comunidade dos que escutaram e acolheram a Palavra de Deus, mas, sobretudo, a comunidade daqueles que aceitaram e vivem essa Palavra, o Evangelho. Significa que o Senhor não falou, não Se revelou em vão mas sim para que, progressivamente, essa Palavra fosse vivida e a comunidade aprendesse a caridade, a fraternidade e a solidariedade.

Sendo Povo de Deus, Deus pede à sua Igreja que seja sacramento para o mundo. É a missão da Igreja. Aliás, é sendo Povo de Deus que a Igreja é sacramento para o mundo. Sacramento significa sinal visível e eficaz do amor e da solicitude de Deus pelo mundo e pelos homens. E lembremo-nos que a Igreja está no mundo porque Deus ama este mundo.

É interessante que, quando Jesus diz aos seus discípulos que são Luz do mundo (Mt 6, 1 -17), Jesus não lhes diz que devem tentar ser vistos pelos homens. O que Jesus lhes diz claramente é que eles (discípulos) são essa luz que não pode ficar fechada.

Jesus não pede, então e de facto, que nos ocupemos e preocupemos a atrair as atenções sobre nós. O que Jesus nos diz é: “Se fizerdes o que vos mando, sereis vistos pelos homens quer queirais, quer não; e o que mostrardes fala do sentido da vossa vida”. A visibilidade da Igreja pertence à sua própria essência.

2. A missão da Igreja: anunciar, celebrar, viver a fé

Partindo da reflexão da Igreja como Povo de Deus e como comunhão, podemos então falar da tríplice missão da Igreja: Anunciar o Evangelho, Palavra de Deus (Kerigma, Koinonia); Celebrar a Aliança de Deus e a salvação que nos dá em Jesus Cristo (Liturgia); Viver a fé numa vida de caridade e solidariedade (Diaconia)

E aqui, quanto à missão da Igreja, vale a pena perguntarmo-nos sobre o porquê da missão ou, dito de outra forma, o porquê da evangelização, do anúncio do Evangelho hoje. Se Deus dá a sua salvação a toda a humanidade, porquê evangelizar?

A Igreja tentou, sobretudo, fazer uma abertura sincera ao mundo e à cultura moderna. Não tanto – é preciso dizer-se – para adaptar a mensagem cristã reduzindo-a àquilo em que o homem moderno acredita, mas para que não se fizesse abstracção do destinatário dessa mesma mensagem. Foi por essa razão que nos anos pós-Concílio se deu atenção, sobretudo, às formas de anunciar. Sentia-se que era necessário encontrar o homem de hoje, falar a sua linguagem, responder às suas interrogações. Não era tanto a mensagem cristã que era interrogada, mas sim a maneira de a apresentar.

O problema revelou-se, contudo, bem mais profundo e fundamental. Se a transmissão da fé se tornou tão difícil e tão frágil, isso não acontece apenas porque não tenhamos encontrado ainda o método adequado. O que hoje coloca questões e interroga não é apenas ou sobretudo o método, mas é sim o próprio conteúdo da fé e a expressão do seu sentido para vida dos homens.

E porquê? Fundamentalmente porque a nossa cultura é uma cultura subjectivizada e, consequentemente, secularizada que faz, muitas vezes, coincidir a verdade com a opinião que tem. E essa subjectivização e secularização já não aparecem como uma opção entre outras, antes aparece com estatuto de saber e de estrutura tão incontornável que chega a auto-propor-se como modelo de homem e de sociedade: hoje pode viver-se e morrer, viver em conjunto e construir uma comunidade humana e, no entanto, não acreditar em Deus e nunca se colocar a interrogação sobre a sua existência.

É por isso que o problema da evangelização e da transmissão da fé tem de ser colocado de forma radical: não apenas ao nível dos métodos, mas ao nível dos conteúdos da fé, da fidelidade à tradição bíblica e cristã e, muito sublinha-damente, ao nível do ardor e das linguagens com que hoje se fala de Deus.

Porquê anunciar o Evangelho? Esta é uma questão que necessita resposta. E, das respostas mais teóricas às que são mais práticas, há imensas possibilidades a serem reflectidas pela Igreja: é necessário evangelizar porque Deus quer fazer-Se conhecer à humanidade para partilhar e dar sentido à vida dos homens; é necessário evangelizar porque o homem humaniza-se quando sente a alegria de se encontrar com Deus; é necessário evangelizar já que esse é um imperativo e sinal natural da vida em Igreja.

 “Anunciar o Evangelho” não é apenas algo que a Igreja deva fazer. Pela sua existência, pela sua identidade, pela sua fidelidade à sua vocação, a Igreja é ela própria o anúncio efectivo, eficaz e vivo e vivificante da Boa Nova do Evangelho de Jesus Cristo. “Pastoral” ou “acção pastoral”, “evangelização” não é, portanto, apenas algo que a Igreja faça, mas é, antes de mais, algo que a Igreja é. O desafio é o da fidelidade à sua identidade.

 


A Oração Sinodal que rezamos

A Igreja: somos um Povo reunido em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Significa que não nos unimos nem nos reunimos apenas por nossas forças, nosso interesse e nosso gosto pessoal, mas que Deus é a força da nossa reunião e a força da nossa unidade. Convocados e chamados por Deus, reunimo-nos e fazemos comunhão.
O Pai que nos criou, o Filho que nos remiu e o Espírito que nos santifica são um único e mesmo Deus que, de diversas formas, em momentos diferentes da história dos homens, por meios diversificados, Se revela e constrói com a humanidade uma história de salvação.

Pela revelação sabemos que Deus se manifesta na história, mediante as suas intervenções salvíficas, e na criação mediante as suas obras. A estas duas manifestações corresponde no homem a capacidade de O conhecer mediante a fé e mediante a razão.

É assim que "O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério do próprio Deus. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé, e a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na 'hierarquia das verdades da fé'. Toda a história da salvação não é senão a história do caminho e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito Santo, Se revela, Se reconcilia e Se une aos homens que se afastam do pecado."  (Catecismo da Igreja Católica, nº 324).

O Pai ama o Filho e dá-Lhe a sua Vida. O Filho, por sua vez, acolhe-Se do Pai e na relação de amor, que unifica e distingue, geram o Espírito de quem fazem dom de envolvência à humanidade. Cristo abre-nos a Porta do acesso a Deus e contagia-nos, através do Espírito, com o dom da sua relação ao Pai. Envolvidos assim no amor de Deus, por dom do Espírito, os homens e mulheres de todos os tempos aprendemos a ser e a viver como filhos de Deus no Filho Jesus Cristo.

Então, pela fé afirmada no baptismo como semente e fermento da semelhança com Deus, a humanidade sente-se acompanhada e a fazer história que é, decididamente, história de salvação. E se Cristo é Homem Humanidade em plenitude como é Deus, então Cristo revela-nos e ensina-nos o que é divino em cada pessoa humana. É por isso que, na vida cristã, cada passo, cada sentimento, cada empreendimento, cada gesto cristãos só alcançam o seu significado profundo quando em comunhão com Cristo e à luz do projecto do seu reino.

Um projecto humano de purificação da dedicação da vontade e da fidelidade a Deus como é um Sínodo diocesano só faz sentido à luz de Deus e da sua Palavra. É por isso que a oração do nosso Sínodo invoca, antes de mais, a capacidade e possibilidade de descobrir e acolher Deus revelado em Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. E porque os caminhos, as verdades e a vida nunca são estagnação, o primeiro desafio é acolher os sinais e os meios que possibilitam crescimento e progressão: a experiência de sentir chamado e da comunhão, a Palavra de Deus, o baptismo como dom, o alimento da Eucaristia, o perdão como novo e constante renascimento, a resposta vivencial como entrega confiante e testemunho do sentido da vida.

O que pedimos nesta oração é a clarividência, o discernimento, a força e capacidade para nunca relativizar nem desperdiçar os dons e os sinais de Deus. A maior parte das vezes entendemos a “hipocrisia” que Jesus aponta aos fariseus como uma falta moral activa. Mas, na realidade, ela é mais uma carência, uma incapacidade de discernimento e de decisão, uma falta de identidade e, por isso, uma falta de personalidade. O que pedimos é, portanto, a vivacidade dos dons em nós. Para que seja impossível não discernir entre o que vale e o que não vale nada.

Pessoal e individualmente cada pessoa tem uma opinião, até mesmo uma ideia. E se, a partir da suas opiniões, julgar todas as outras opiniões e/ ou ideias como adversárias da sua, então isola-se e desperdiça-se. Mas se olhar precisamente para a diferença como um desafio de crescimento e de valorização, um repto ao discernimento, então a comunhão ajuda a distinguir sem separar e a diversidade transforma-se em riqueza.

É isso que pedimos: disponibilidade e profundidade de leitura das realidades e dos sinais de Deus; comunhão como perspectiva de vida de fundo; ousadia, esperança, confiança e serenidade de quem se sente acompanhado por Deus; capacidade de testemunho da alegria cristã.

Questões de reflexão:

1.    Como pessoa, e nos grupos que constituo e integro, espontaneamente tenho mais facilidade em unir ou em separar? Sou espontaneamente agente de boas relações e sou capaz de motivar à confiança?
2.    Quais são, na vida do dia a dia dos cristãos, os sinais expressivos que evidenciam a sua fé?
3.    Quando sinto diferença e confronto entre as minhas perspectivas e os desafios do Evangelho de Jesus Cristo, normalmente por quais me defino e porquê?
4.    Acredito e colaboro com Deus no que lhe peço nas minhas orações?
5.    Elabore um conjunto de propostas para que os cristãos possam valorizar mais a oração.
 

Tema I

Igreja diocesana, que dizes de ti mesma?

A Igreja pode ser vista, por qualquer pessoa, de muitas e diversas perspectivas: histórica, sociológica, política, espiritual, filantrópica! Mas, para um cristão, baptizado, crente, a Igreja não se reduz a nenhuma delas. Aliás, identificá-la em exclusivo com qualquer uma dessas possibilidades seria, de facto, resumi-la e, sobretudo, reduzi-la, não a conhecendo pelo que lhe é essencial.

Para um cristão, a Igreja é uma comunidade de crentes, baptizados, e, claramente, um mistério de fé. É a comunhão dos que respondem ao chamamento de Jesus Cristo. E, por isso, Igreja é convocação. Existe em milhares de pequenas comunidades, porção de todo o Povo e não apenas parcela, e existe como Igreja Universal, a comunhão da totalidade, a catolicidade da comunhão em torno do Colégio episcopal (Bispos) presidido pelo Sucessor de Pedro. Assim, na diversidade, a Igreja é una e, sendo um Povo de baptizados, ela é sinal e sacramento de Jesus Cristo, a Luz dos Povos.

Uma Diocese, mais do que apenas uma circunscrição jurídica ou geográfica, mais do que apenas um aglomerado de pessoas, é uma experiência de comunhão em Jesus Cristo, uma porção do Povo de Deus onde estão presentes todas as notas identificativas da Igreja (Porção do Povo de Deus, Bispo em comunhão com o Colégio Apostólico, Presbitério em comunhão com o Bispo, Evangelho, Eucaristia – una, santa, católica, apostólica).

O Sínodo coloca-nos hoje a pensar sobre o que diz de si mesma a nossa Igreja diocesana. Uma avaliação do desempenho, como pede a presente interrogação, não se faz apenas com a conjugação de opiniões ao estilo de “eu acho que ... sim” e outro “acha que ... não”! Uma avaliação do desempenho conduz-nos antes de mais ao encontro da identidade da Igreja, a sua natureza e a sua missão. E a avaliação do desempenho pede, precisamente, que consigamos ver e perceber se estamos a viver quotidianamente essa identidade e missão da Igreja ou se estamos e andamos dispersos por outras possibilidades.

Se a natureza da Igreja se define pela fé em Jesus Cristo que realiza comunhão e comunidade e se a sua missão é ser sinal e sacramento de Jesus Cristo, em termos práticos como tem acontecido isto na vida da nossa Diocese? O que se tem feito e se projecta fazer, actividades, celebrações, formação, vida cristã, vocações, movimentos, vida paroquial, secretariados, esforços e contribuições, todas as actividades, tudo isso resiste e responde à exigência que, coerentemente, surgem da natureza e da missão específicas da Igreja?! Ao limite a interrogação far-se-ia da seguinte forma: temos tentado, de forma encarnada e realista, partindo do mistério da fé, construir a Igreja de Jesus Cristo que chama a humanidade à comunhão consigo e à salvação ou temos apenas colocado em prática desejos humanos de realização pessoal e enquadramento sociológico? O que nos move transcende-nos e, por isso, motiva-nos à descoberta de nós próprios e à confiança em Deus e na humanidade ou o que nos move tem apenas a ver com o “gosto” pessoal, o sabor subjectivo dos enquadramentos sociais, a afirmação de nós próprios? Diante de tudo o que o prato do quotidiano existencial nos serve, qual a novidade (em termos de fé e de sentido, de esperança, de caridade) que já sentimos nas nossas vidas por sermos cristãos e por termos fé, por sermos Igreja?  

O mundo e a vida não se podem ver nem dividir apenas a duas cores. Mas quem distingue acaba por confundir. E se, mesmo no meio da experiência evidente da imperfeição (por condição não lhe conseguimos fugir), não colocamos as interrogações sobre a possibilidade de perfeição e santidade, então nunca progredimos em sentido nenhum. Quem não tem ideais não encontra caminhos de construção, quem não vê para além de si mesmo e da sua situação, não se sente chamado a nada, quem não sabe para onde quer ir não encontra nunca ventos favoráveis.

A história e a experiência da nossa Igreja diocesana hão-de falar de muita coisa. Alegrias e esperanças, angústias e tristezas. É bom sabermos quem somos e de onde vimos para podermos descobrir para onde temos de ir. E então, depois de perceber o “para onde” e o “para quê” dos nossos rumos e trabalhos, interiorizar a validade existencial e teologal do projecto, empreender esforços, colocar no terreno os meios e os instrumentos, adequar as estruturas, crescer na valorização pessoal e da experiência comum, celebrar e ... continuar a crescer!

Questões de reflexão:

1.    O que é a Igreja Católica e quais as suas notas identificativas numa Diocese?
2.    Quais os momentos e dinamismos mais fortes da história de vida e de percurso da Igreja diocesana de Portalegre-Castelo Branco? Datas, pessoas, aconteci-mentos, movimentações e dinamismos.
3.    Numa Diocese com a realidade humana, eclesial e social como a nossa (desertificação e migração, falta de vocações de consagração, dispersão de meios, compromisso cristão), quais os desafios que se vislumbram em termos de fé e evangelização, vivência cristã e testemunho, com unidades cristãs e transmissão da fé? Existe adequação da proposta eclesial (linguagem, meios, actividades) aos tempos actuais?
4.    Elabore um conjunto de propostas que, entre os cristãos, ajude a valorizar a perspectiva da Igreja como comunhão.
 


Tema II

O mesmo Jesus Cristo e nova evangelização

Será o homem capaz de conhecer Deus? Como? Em que medida? Uma interrogação e crise desta dimensão não se poderá ultrapassar senão na medida em que se re-descobrir a intervenção de Deus em Jesus Cristo (revelação na carne, no gesto e na linguagem de Jesus Cristo que é carne, gesto e linguagem dos homens).

O homem a quem Deus Se revela é também ele um homem concreto, com uma história concreta e a viver numa história determinada. A história, aliás, é o horizonte de interpretação de toda a revelação de Deus.

Jesus Cristo ocupa, pois, uma posição única no horizonte da revelação que faz distinguir o Cristianismo de todas as outras religiões. É a única religião onde a revelação se incarna numa pessoa que se apresenta como a verdade viva e absoluta. E a Pessoa de Jesus Cristo, em Quem Deus encarna, recolhe e unifica em si todos os aspectos que ao longo da história do pensamento foram sendo requeridos na reflexão para que uma verdade se pudesse afirmar como tal e assim também pudesse ser reconhecida: transcendência da verdade (correntes platónicas); historicidade da verdade (pensamento moderno e contemporâneo); interioridade da verdade (trazida à luz pelas diversas formas de existencialismo). Jesus Cristo transcende-nos em Palavras e gestos, viveu historicamente como homem concreto, revelou uma verdade e um sentido novo para a vida de todos os homens e de todos os tempos.

Jesus Cristo não é, portanto, apenas um simples fundador de uma religião. Ele é, por um lado, imanente à história dos homens (está dentro dela e vive-a) e, por outro, transcende-a absolutamente [supera-a e está para além dela (mistério da Santíssima Trindade)].

Entra então em cena aquilo que denominamos mistério. O mistério, segundo o conceito paulino, é o desígnio de Deus que se vai revelando progressivamente...mas que nunca deixa de ser mistério (aquilo que revela é precisamente o seu ser mistério, o seu ser “obscuro”, não totalmente claro, não totalmente cognoscível ao homem...). Jesus Cristo será então a revelação de Deus, o mistério que estava “em segredo desde os séculos...” (Rom 16, 25-27) e que, progressivamente, foi sendo revelado por Deus.

Como Sto Agostinho deixou entrever num dos seus comentários ao Evangelho de João (Sermão 55, 1) o mistério de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o de levar o homem a passar para aquilo que não passa, passar (ultrapassar) do mundo para não passar com o mundo e, portanto, passar constantemente para Deus.

E, de facto, se virmos à nossa volta e bem dentro de nós, tudo passa e tudo o que passa acaba por não ter capacidade para ser a finalidade da vida do homem criado à imagem e semelhança de Deus. Passam o pecado, a vaidade, o orgulho, a inveja … tudo. Passam porque nunca preenchem nem dão segurança absoluta. Passam porque não permanecem. Passam porque estão, muitas vezes, dependentes de estados anímicos e/ou emotivos.

Mas, para lá de tudo o que passa e não dá segurança, há Alguém que não passa: Deus, o Amor de Deus. Jesus não Se resumiu ao mundo e o seu chamamento é a que nós também não nos resumamos ao mundo. A história e os tempos mudam, mas Jesus é o mesmo ontem, hoje e sempre. Então o desafio é que, pressupondo a mudança da história, sejamos capazes de referenciar cada momento e cada tempo a Jesus Cristo, o Único que permanece (a Cruz permanece, enquanto o mundo passa, têm como lema os Monges da Cartuxa).

E, sendo assim, que sentido tem hoje falar de evangelização ou, mais do que isso, de nova evangelização? Evangelizar, para a Igreja - como afirma o nº 18 da Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi do Papa Paulo VI - é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade.

Como não haverá humanidade nova sem haver homens novos, a finalidade da evangelização é precisamente esta mudança interior.

É este processo que hoje necessita fazer-se novo. As nossas sociedades e os contextos concretos onde vivemos alteraram-se muitíssimo nos últimos anos. Pluralismo de ideias e experiências, secularização e secularismo, ateísmo e agnosticismo, formas redutoras de vivência cristã da fé, privatização das vivências de fé, dimensão moral da vida alicerçada sobre o subjectivismo são verdadeiros desafios à fé e ao testemunho do Cristianismo.

A pretensão moderna e pós-moderna do pluralismo ético e religioso que se impõe como a grande norma moral intransponível e insuperável acaba por não trazer à humanidade grandes ideais. Quer se trate da economia, quer se trate da política ou mesmo das incertezas tecnológicas e ambientais, a situação convulsiva do mundo em que vivemos torna-se cada vez mais preocupante e angustiante deixando as nossas mentalidades técnicas e éticas sufocadas e incapazes de dar respostas credíveis.

Talvez por tudo isto o conceito de “nova evangelização” seja difícil de definir. Porque não se trata apenas de fazer o que sempre se fez com as formas que sempre se utilizaram. É que não se trata apenas de uma re-evangelização. Trata-se sim de uma nova evangelização, tendo sempre como modelo o estilo de Jesus e de Paulo.

A transmissão da fé já não se faz apenas por determinadas práticas e obrigações. A nova evangelização é o convite a lembrar que a grande opção do Cristianismo e da fé é a opção pelo sentido, pela racionalidade. A cidade dos homens, onde vive a comunidade cristã, é uma realidade que obriga a pensar e a reflectir, que exige sentido do discurso e das práticas. É, sobretudo, uma cidade que já não dá a fé cristã como óbvia e que, muitas vezes por esse mesmo motivo, subjectiviza as questões.

A nova evangelização exige então um novo ardor, novos métodos e novas linguagens. A Igreja foi criada por Jesus de Nazaré para que fosse a continuação viva da sua vida e presença no mundo e nunca faltou a esse dever. Nasceu com essa missão e, se deixasse de a realizar, faltaria à sua missão essencial. No meio de um mundo como o que conhecemos (estamos à beira de uma nova era que, no entanto, nos parece altamente incerta e meio obscura), até pelo caminho que já foi realizado, o papel dos católicos torna-se ainda mais significativo. Fomos chamados e enviados para sermos sal e luz, para dar sabor à vida e iluminar todos os que procuram um significado e sentido para as suas vidas. Somos mesmo chamados a edificar e anunciar um novo humanismo no qual a paixão pela verdade se torne força de construção e de transmissão da fé. Trata-se de dar razões da nossa esperança (1 Pe 3, 15).

Questões de reflexão:

1.    Há uns anos atrás era comum falar-se da “hora dos leigos” quase em contraposição à “hora da instituição eclesial ministerial”. Onde nos levou esse caminho de contraposição em vez de um caminho de conjugação e comunhão? Um Ministro ordenado faz um percurso de aprendizagem e preparação mais ou menos longo para poder exercer um ministério. E os leigos? Que formação, que aprendizagem, que percurso lhes é pedido para poderem testemunhar a fé, resistindo às questões e interrogações do sentido da vida no mundo de hoje?
2.    A Igreja perde a força missionária quando se encerra em si mesma. Comunidades agressivas dentro de si e consigo mesmas não ousam voltar-se para fora, anunciar e acolher. Que notas reconhecemos nas nossas Comunidades de que possamos estar a viver para dentro? E que notas e sinais nos evidenciam o contrário?
3.    O que pode significar, no contexto da nossa Diocese, falar do Jesus Cristo de sempre com novo ardor, novas linguagens e novos métodos?
4.    Será possível conjugar “religiosidade popular” com “nova evangelização”? Sim, é, não existe contradição! Que caminhos é preciso percorrer?
5.    Elabore um conjunto de propostas que ajude os Cristãos a conhecer melhor a Pessoa e Mistério de Cristo.

 


Tema III

Estruturas de participação
(Diocese, Paróquias, Movimentos e Novas realidades eclesiais)

A Igreja é Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito. Mas não é uma anomia nem uma anarquia. É um Povo orgânico reunido na fé. A Luz do Povos é Cristo mas a Igreja é seu sinal e sacramento. E para poder agilizar a sua sacramentalidade, a Igreja tem ministérios, estruturas de participação, meios de vida diversos onde o que acaba por sobressair é a comunhão na diversidade da riqueza de caminhos e carismas.

Contudo, também aqui, quem nos vê de fora não é capaz de dizer o que nos vai dentro. A afirmação tão perniciosa quanto difundida na nossa sociedade de que “Cristo sim, Igreja não” é sinal disso mesmo. Os que somos, nos sentimos e vivemos como Igreja, que fazemos formação, que crescemos como Igreja, que temos uma história conjunta de participação, vemos a Igreja a partir de dentro e definimo-la de uma forma: é mistério de comunhão, é Corpo de Cristo. Os que a vêem apenas de fora vão defini-la com outras cores e, muitas vezes, caracterizam-na apenas como estrutura, forma de poder e influência, etc.

Lembremo-nos, por exemplo, de um catecúmeno que, contava ele, quando entrou pela primeira vez numa Igreja, não compreendia porque é que as pessoas se levantavam todas num determinado momento e se sentavam noutro. Todas essas atitudes lhe escapavam completamente. E, por isso, ao sair concluiu para com aquele que o acompanhava: “Eu não faço parte disto”!

É importante percebermos que a forma como a própria Igreja se dá a ver e a perceber aos outros (particularmente aos que não são cristãos) faz parte fundamental da sua missão de sinal da vida de Jesus Cristo. Dito de outra forma significa que a organização da Igreja deve reflectir o conteúdo da fé, mesmo se e quando apresentada de forma diferente da de outras épocas. Há formas e sinais que fazem, continuam a fazer sentido. E há formas e sinais que não fazem sentido. O que faz sentido num momento pode até não o fazer em outro momento.

Se pensarmos na forma como a nossa Igreja se mostra e se dá a ver, é evidente que a primeira coisa que as pessoas vêem é a estrutura exterior: o Papa, os Bispos, a Conferência Episcopal, os Padres (uns assim, outros de outra forma, com ideias diferentes e a gostarem de as dizer), as Paróquias, um Padre por Paróquia, um Bispo por Diocese, um Arcebispo para dez ou vinte Bispos, contas, etc. Mas isso é apenas uma perspectiva parcelar, imagem muito limitada, do que é a Igreja. Todas as coisas têm o lado de dentro e o lado de fora.

É claro que, quando comparamos o que vivemos agora com a época da fundação das primeiras comunidades cristãs, damos conta de que estamos diante de outro universo cultural completamente diferente.

Mas esse universo cultural do contexto inicial da Igreja teve aspectos substancialmente positivos e estruturantes da própria Igreja. Olhemos, por exemplo, para o ambiente da Sinagoga com o seu responsável, o archi-synagogos de que nos fala S. Lucas, o mínimo de dez anciãos. É o sistema que o próprio S. Paulo adopta para estruturar e organizar as comunidades cristãs. Na Sinagoga fala-se, discute-se. E isso é de tal forma verdade que, quando Jesus entra numa Sinagoga, Lhe passam “o Livro” para que leia, reflicta e comente. E quando Paulo chega a Antioquia da Pisídia alguém lhe pergunta: “Irmão, tens alguma coisa a dizer?”!

A cultura do diálogo, do aprofundamento comum de ideias, de debate, da troca de palavras como expressão e sinal de fraternidade e comunhão é dos patrimónios mais autênticos e originais da Igreja e do Cristianismo. E a Carta aos Efésios, o interessante mundo grego, manifesta-nos como os “cidadãos” tinham a possibilidade de debater, comentar e participar na coisa pública. Talvez por esse motivo Paulo em outra ocasião defenda com tanta energia o seu título de cidadão romano, ou seja o seu direito de falar e de não ser tratado com indiferença. E é a mesma Carta aos Efésios que contém um elemento fundamental: Paulo dirige-se aos Efésios e diz-lhes que outrora eles eram estrangeiros (tinham direito de residência mas não de participação nas decisões) mas agora são cidadãos e, sobretudo, concidadãos dos Céus. E quando Paulo explica aos Coríntios que tudo é para eles e eles são para Cristo, Paulo toma partido contra todo o género do que se poderia chamar clientelismo que reinava em Corinto e que era precisamente a negação do direito de cidadão. Paulo empenha-se em fazer entender o “estatuto” de corpo, um estatuto onde, apesar das diferenças, todos têm lugar e se podem dizer.

A forma como a Igreja se exprime acerca de si mesma, nas suas estruturas, meios e instrumentos, é hoje fundamental. E é muito importante que, nas nossas maneiras de viver em Igreja, estejamos em lógica, em conformidade, em fidelidade, com o Deus de Quem falamos e que anunciamos. Dizemos na Eucaristia “Não olheis para os nossos pecados mas para a fé da vossa Igreja” e temos de, permanentemente, acolher a Igreja como Mãe na Fé e na caminhada cristã.

Se partíssemos de todo o Novo Testamento concluiríamos três grandes notas da Igreja nascente: são comunidades que nascem da fé e do anúncio da Palavra; são comunidades que vivem em comunhão autêntica; são comunidades que celebram e se congregam na Eucaristia.

É para tornar a comunhão operativa que, desde o princípio e sempre renovando-se, a Igreja criou estruturas que mais não são do que instrumentos ao serviço da fé em Jesus Cristo. A Diocese ou Igreja local não é, neste sentido, uma simples estrutura. Ela é, com seu Bispo unido ao Colégio dos Bispos sob a presidência do Bispo de Roma, a experiência objectiva e prática da Igreja. Os Apóstolos, chamados e enviados por Cristo, chamaram, formaram, impuseram as mãos e enviaram outros discípulos (bispos, diríamos já assim) que, em cada cidade, agregaram a si cooperadores e colaboradores na confissão da fé, no anúncio da Palavra e na celebração. A Igreja de cada local não é uma parte (parcela) de Igreja mas é sim uma porção da Igreja universal. Nesse “local”, Igreja local, experimenta-se a Igreja em toda a sua totalidade e profundidade.

As Dioceses trouxeram depois à luz do dia as necessárias estruturas de participação. Hoje conhecemos imensas. A nossa Diocese, objectivamente, congrega uma quantidade imensa de Secretariados, de Conselhos, de Organismos que pretendem ser uma ajuda na transmissão e anúncio da fé em Jesus Cristo. E as Paróquias e Movimentos, mesmo com as dificuldades próprias de aplicação concreta no terreno, corporizam mais umas quantas estruturas (Conselhos Pastorais, Conselhos Económicos, Departamentos de Liturgia, Departamentos de Catequese e Formação, etc, etc). Todas as estruturas existem para agilizar e facilitar o trabalho prioritário da Igreja que é o de ser sinal e fermento de Cristo.

Questões de reflexão:

1.    A globalização, a criatividade nas artes e ciências, o desejo de participação nas decisões, o desenvolvimento, a emergência do pluralismo, a rapidez e performance das comunicações, as novas formas de relação interpessoais, a procura de espiritualidade, a ecologia são tudo expressões de uma mutação cultural que interpela fortemente a Igreja. Que possibilidades e desafios de diálogo existem? Como?
2.    A hospitalidade como abertura à vida, o reconhecimento dos sinais do Evangelho nas vidas alheias, a descoberta constante da Palavra de Deus, a intervenção comprometida e assumida na causa comum, a importância da comunicação, a inculturação do Evangelho são algumas das condições para o anúncio do Evangelho ao mundo de hoje. Que caminhos concretos e objectivos é necessário empreender e valorizar ao nível da Diocese, das Paróquias e dos Movimentos?
3.    As estruturas actuais facilitam ou dificultam a acção e vida da Igreja? Existem alternativas credíveis e viáveis? Qual o lugar da responsabilidade pessoal dos líderes no perfil das estruturas de serviço?
4.    Somos uma Igreja rica em departamentos, estruturas e movimentos mas dispersa, ou uma Igreja pobre em departamentos, estruturas e movimentos mas em comunhão?

5.    Elabore um conjunto de propostas que dinamize a articulação comunional de todas as estruturas da Igreja.


 

Tema IV

Formação cristã: adultos, adolescentes e jovens, crianças

1. Formação cristã permanente

A formação é como a respiração, algo que acompanha a vida cristã no seu ritmo ordinário e extraordinário e que realiza a unidade e harmonia com o projecto e pleno de Deus.

Falar de formação cristã é, necessariamente, dizer “formação permanente”. É uma acção de Deus porque é Deus que tudo dispõe e concede todos os dons, mas que requer de cada cristão uma disponibilidade livre, inteligente e activa para fazer caminho. Quem não progride não fica em estado neutro, antes começa a regredir. Em Igreja, cristãmente, a formação é um autêntico caminho de fé, uma formação permanente da adesão crente, uma caminhada para a maturidade cristã de vida.

Na vida do cristão não existe formação que se possa entender apenas como um período fechado e acabado da vida já que o baptismo é um dom que é necessário cuidar sempre e fazer crescer. Se não respirar significa morrer, não se formar permanentemente significa deformar-se. Sem formação permanente haverá frustração permanente. E, por isso, formação permanente não é um curso, não é uma aula, mas pode supor o curso, a aula e muitos outros instrumentos. Tem, necessariamente, é de ser uma atitude de fundo, um ritmo mais do que apenas uma ordem. No Cristianismo em geral e na Igreja em particular, existem vários ritmos que é necessário assumir com disponibilidade.

2. Ritmos de formação cristã

O primeiro e mais genérico (não mais abstracto) é o ritmo existencial. A nossa vida, com tudo o que a constitui, é lugar e experiência de formação: não somos só nós que fazemos caminhos, os caminhos também nos fazem e constroem. É verdade que muitas vezes nos sentimos tentados a não estar onde estamos, a aguardar por condições ideais para fazer isto ou aquilo (se eu tivesse ... se eu fosse ... se houvesse aqui ...), mas  a verdade é que o choque com a realidade já está a formar-nos. A vida forma-nos sempre que resistimos a fecharmo-nos sobre nós próprios.

Neste campo até a nossa vida cristã, dita normal, é contexto de formação: como baptizado estou chamado a dar frutos de cristianismo, então a minha vida como ocasião de serviço, de fraternidade, de crescimento na verdade ... é ocasião de formação. É por isso que a chamada “vida comum” é uma esplêndida escola de formação cristã permanente.

Um segundo ritmo de formação podemos encontrá-lo no ritmo diário: levantar-se (e os sentimentos com que nos levantamos), rezar, trabalhar, ser voluntário, relacionar-se nos locais de trabalho e/ou diversão, a família (mulher, filhos, agregado familiar), o regresso a casa, os momentos celebrativos, a revisão de vida e acção de graças ao deitar etc, são formação permanente. Quais os momentos fortes de um dia normal na vida de um cristão?

Um terceiro ritmo de formação cristã podemos defini-lo como o ritmo semanal. Porquê?! Pode ser por muitos motivos, a reunião da Paróquia, de formação temática, do Movimento, a Catequese, os tempos livres dos filhos, mas, sobretudo, porque a Igreja tem ela própria um ritmo semanal na celebração da Páscoa, o Domingo. Partir do encontro com a Palavra, com o Perdão e com a Eucaristia para enfrentar cada semana e ser capaz de trazer à Eucaristia do Domingo a semana vencida e vivida dá ao dia a dia uma finalidade e um ritmo próprios. O Dia do Senhor, como é costume dizer-se, é o Senhor dos Dias.

Um quarto ritmo podemos defini-lo como o ritmo mensal. Congregando tudo o que são vivências e experiências, ritmos diários e semanais, o ritmo mensal pode trazer à vida de um cristão a oportunidade da revisão de vida, da reflexão sobre as opções, da reconciliação sacramental. Quem não se avalia também não progride e acaba por correr o risco de regressar vezes sem conta aos mesmos erros.

E, finalmente mas não por último, um quinto ritmo que é o ritmo anual. O ritmo anual contém, evidentemente, todos os outros ritmos, mas aporta novas possibilidades a cada cristão: em primeiro lugar a possibilidade de participar num retiro, num congresso, num simpósio enquanto tempo mais longo de reflexão; em segundo lugar porque um ano desafia a uma caminhada e a Igreja, na sua sabedoria secular, ajuda-nos todos os anos a percorrer pedagogicamente a totalidade do mistério de Cristo: o ritmo do Advento que deseja e espera o encontro com Jesus, o ritmo do Natal que celebra o encontro e o desejo satisfeito, o ritmo da quaresma que sublinha o desejo de se configurar a Cristo na sua morte, o ritmo da Páscoa que se experimenta como ocasião de configuração a Cristo na vitória sobre todas as mortes, o ritmo do Pentecostes como desejo de anúncio do Evangelho e o ritmos de todas as festas de Cristo, de Nossa Senhora, dos Santos que nos mostram a riqueza da vida de Deus quando vivida pela humanidade.

3. Formação cristã específica

No plano mais objectivo da formação cristã existe, depois, a necessidade de proporcionar, pedagogicamente, formação específica (conteúdos, formas, meios) a todos os cristãos: crianças, adolescentes e jovens, adultos. A grande limitação desta formação é que, normalmente, feita a chamada catequese obrigatória “para ter as comunhões todas”, cada cristão dá como suposta e acabada a sua formação. E o perigo é de deixar de cuidar do dom do baptismo. Não são alheios a este facto os imensos conflitos que se experimentam em muitas comunidades cristãs. Alguém andou na Catequese até ao 10º ano, fez o Crisma e deixou os enquadramentos da Igreja. Quando, mais tarde, deseja alguma coisa da Igreja vai fazê-lo em registo de “direitos e deveres” e não de “capacidade e sentido”. E, por isso, não dá conta de que há pedidos e perguntas que não se fazem: “Padre, os meus compadres não são baptizados mas foi a eles que escolhi para serem padrinhos de baptismo do meu filho; e não diga que não porque o meu filho não aceita mais ninguém”. E saem, neste caso que serve de exemplo, os Sacramentos tratados como algo de que cada um dispõe a seu prazer e conveniência sem caminho feito, sem fé e sem desafio para fazer ao jeito de quem compra um boneco de peluche a uma criança para a calar da última birra. E sai o Sacramento desencarnado e descontextualizado da vida como quem toma uma aspirina para uma dor de cabeça que se deseja nunca mais apareça, a não ser em situação extrema.

As Crianças têm uma forma própria de viver a fé e têm uma sensibilidade própria para Deus. Os adolescentes e jovens têm outra e têm outras exigências. E os adultos, necessariamente, outra. O grande desafio que é feito à Igreja é o de adaptar os meios e os instrumentos às inquietações e aberturas de sentido de cada destinatário da mensagem evangélica.

Questões de reflexão:

1.    A espiritualidade dos cristãos (leigos, religiosos, presbíteros) é a vivência da sua identidade própria. O que resultará de uma tentativa de espiritualidade sem definição e aprofundamento da identidade? Que relação estabelecer entre “formas e fórmulas” e “conteúdos e sentido de vida”?
2.    Porque desaparecem os adultos jovens, entre os 25 e 45 anos, da Igreja e continuam a pedir o baptismo dos filhos?
3.    Para lá de organismos, movimentos, paróquias, de que têm sede hoje as pessoas que procuram Deus nas suas vidas?
4.    Que actividades propor a jovens para ser possível falar-lhes de Deus?
5.    Como pode a Igreja adequar a sua oferta de formação permanente também aos adultos?
6.    Elabore um conjunto de propostas sobre pedagogias para a fé cristã.
 

Tema V

Celebração da nossa fé

1. Os Sacramentos: memória e fé; acções de Cristo e da Igreja

A Igreja partilha plenamente a vida da humanidade em cada homem e em cada mulher. Mas, ao mesmo tempo, por natureza e por missão (ela é sinal e sacramento de Cristo, a Luz dos povos) ela sente necessidade de se reunir para, na experiência da caridade, celebrar a sua esperança e animar a sua fé. É assim que os grandes momentos da vida humana e os seus ritmos ordinários e quotidianos são uma ocasião privilegiada dos cristãos se reunirem na presença do Ressuscitado, de escutarem a sua Palavra, fazerem memória da sua vida e refazerem os seus gestos. É, por isso, na Comunidade que cada cristão encontra de forma privilegiada o seu Senhor e Mestre, Jesus Cristo, e acolhe a salvação.

Se nos recordarmos bem, a primeira tarefa que Jesus Cristo definiu aos seus Apóstolos foi precisamente de originar esta comunidade à qual o Senhor juntava todos os dias aqueles que encontravam a salvação (Act 2, 47).

As Comunidades cristãs, tão reais quanto humanas, são, segundo a fé dos seus membros, o Corpo de Cristo ressuscitado. E, por isso, os gestos que faz, tão reais quanto humanos, são ao mesmo tempo gestos do Ressuscitado e, por isso, Sacramentos. A Vida cristã, nos diversos sentidos do termo, é, portanto, sacramental.

Um sacramento é um sinal e um meio de realizar a nossa unidade com Deus. Por isso podem definir-se os sacramentos como sinais eficazes do dom de Deus em Jesus Cristo. E, nesse sentido, podemos dizer que são acções de Cristo na vida dos crentes que se realizam através da sua Palavra, do seu gesto e em profunda relação com a existência humana.

Como é que isso acontece? Jesus Cristo, o Filho Único de Deus, ao encarnar assumiu a missão da libertação do homem na sua mais profunda realidade. Palavra e gesto, Palavra e acção sempre se iluminaram mutuamente na vida e ministério de Jesus (Dei Verbum, nº 2). Ele é e diz a Palavra de Deus. E os gestos e tipo de presença à humanidade mostram como a Palavra encarnada, assumida, age na vida dos homens. A Palavra explica o gesto e o gesto explicita e realiza a Palavra fazendo com que seja melhor compreendida e acolhida. É assim o ritmo da revelação de Deus ao mundo porque é assim a possibilidade do homem se deixar surpreender, se deixar cativar, aprender e construir vida.
A morte surge na vida de Jesus como a plenitude da sua vida. Não é um acaso, não é uma eventualidade. Jesus morreu como viveu – fazendo entrega plena de si para que os homens conheçam melhor Deus e se conheçam melhor a si mesmos.

Por isso a Igreja surge da morte e ressurreição de Jesus como o conjunto daquelas e daqueles discípulos que, sentindo-se identificados com Jesus e a sua missão, querem ritmar a sua vida pelos valores do seu Reino e se abrem o seu coração e a sua verdade à acção da força do mesmo Espírito que agia em Jesus. A missão de Jesus é continuada e anunciada.

Cristo vive, portanto, na sua Igreja que é o seu Corpo glorioso. E tudo o que a Igreja faz, fá-lo em Nome do mesmo Cristo sem o qual não existiria. É Cristo que age na sua Igreja, seu Corpo, sua Presença. E quando nos reunimos em assembleia de Igreja somos, precisamente, a imagem visível deste Corpo: membros diferentes, mas que na diferença se completam uns aos outros e vivem organicamente.

E porque a missão de Jesus continua e tem como objectivo ser acolhida por todos os homens, a Igreja tem como identidade própria ser a presença de Cristo, anunciar Jesus Cristo, fazer discípulos de Jesus Cristo. Essa é uma missão sempre em relação com a natureza e a identidade de todas as pessoas. São elas as destinatárias da salvação de Jesus Cristo.

Os sacramentos são, assim, acções de Cristo-Igreja na história dos homens para aí significar a presença de Deus que acompanha essa mesma história com o seu amor. Aliás, o primeiro sacramento é Cristo e seu Corpo actual que é a Igreja.

Neste sentido podemos compreender os sacramentos como acções simbólicas (gesto e palavra) que significam e actualizam (tornam presente) uma realidade invisível destinada à libertação, salvação e felicidade da humanidade. E dizer “simbólicos” não significa dizer abstractos ou irreais. É precisamente porque são “simbólicos” que permitem ver e projectar a vida humana em comunhão com a Palavra de Deus e, por isso, é por serem “simbólicos” que são eternos e capazes de dar sentido e significado às vidas de todos os tempos e momentos.

2. Os Sacramentos que a Igreja celebra

A Igreja celebra sete sacramentos: o baptismo, a confirmação, a eucaristia, a penitência (ou reconciliação), a unção dos enfermos, a ordem e o matrimónio. Normalmente falamos deles como Sacramentos de Iniciação (Baptismo, Eucaristia e Confirmação); Sacramentos de cura (Reconciliação e Unção dos enfermos) e Sacramentos (Matrimónio e Ordem). Eles são, fundamentalmente, a presença e acção do Único e Primeiro Sacramento (Cristo-Igreja) nas diversas situações e dinâmicas da existência humana: o nascimento; o crescimento; as grandes escolhas; os compromissos fundamentais; a releitura da história e recomeço; a confiança para lá da fragilidade humana. Significa que o homem, a pessoa humana, é todo, inteiro, de Deus. É por isso que os sacramentos contêm sinais na sua explicitação: é para serem melhor acolhidos, compreendidos e integrados na vida. Deus é força em Jesus Cristo e, na Igreja, nos momentos do nascimento, das escolhas, das opções de compromisso, nas dificuldades, na confiança e na alegria. Essas expressões podem ser melhor compreendidas e integradas através dos sinais e dos símbolos sem os quais a possibilidade e capacidade cognitiva e crente dos cristãos não conseguiria fazer a ponte entre o que se vê imediatamente e aquilo que, não se vendo de imediato, nem por isso deixa de existir.

3. Sacramentos de iniciação cristã (Baptismo, Eucaristia, Confirmação)

O Baptismo é o Sacramento da fé em Jesus Cristo e na acção de Deus na história dos homens: o início de uma história que terá sempre as suas consequências ao nível da compreensão da vida e das opções. Por isso é o sacramento do nascimento. Por ele nos assumimos filhos de Deus e nos inserimos conscientemente no Corpo que é a Igreja.

Quando somos baptizados entramos na água. Baptizar significa mesmo imergir. A prática da imersão na água (ou de derramar a água sobre a cabeça) é sinal de purificação e, por isso, de vida nova que se assume. Em crianças (idades em que tradicionalmente somos baptizados) ainda não temos acções que objectivamente nos desviem de Deus, mas fazemos parte de uma humanidade que pela fragilidade pode afastar-se de Deus. Ser baptizado é, então, descer com Jesus às águas em que Ele mergulhou (a vida humana) para daí renascer para uma vida segundo Espírito. Ou seja, participamos do baptismo que Cristo recebeu de João, mas participamos, sobretudo, da oferta que Cristo faz de si mesmo ao Pai e na vida ressuscitada que essa entrega realiza n’Ele (Cf. Jean-Marie LUSTIGER, Le baptême de votre enfant (Paris : Ed. Fleurus, 1999) 5.). É força de vida para o futuro.

A Eucaristia é alimento. Toda e qualquer missão, para ser realizada, precisa de força, de razões, de sentido, de “alimento”. Ora, a Eucaristia é precisamente o sacramento do alimento cristão em todos estes planos. Nela acolhemos a Palavra e nos deixamos desafiar concretamente em alguns campos da nossa vida; nela fazemos memória do amor de Jesus pelo Pai e pela humanidade que O levou a entregar-Se; nela realizamos o mandato de Jesus de realizarmos a sua Memória, tornando-O, dessa forma, presente; nela somos Corpo que se reúne, uma comunidade de irmãos diferentes, mas unidos; nela expressamos e testemunhamos aquilo em que acreditamos pela fé – a comunhão na vida eterna.

Percebendo em Jesus e com Ele que é melhor dar do que receber, que é o amor que cria a vida e a renova, que o perdão é muito mais fecundo do que a vingança, que a gratuitidade é partilha do que somos e temos, a Eucaristia é o momento fulcral em que, como cristãos, percebemos que nos recebemos do facto de nos darmos (à imagem de Jesus que ressuscita porque Se entrega na morte). Por isso este sacramento é a pedra fundamental da Igreja e no seu contexto se realizam as grandes acções da mesma Igreja. Ao repetir e fazer memória das palavras de Jesus “Tomai e comei ... tomai e bebei ... fazei isto em memória de mim”,  percebemos a vida de Cristo como Corpo entregue e sangue derramado, mas percebemos que é também essa a missão da Igreja hoje. Para quê? Para que outros tenham vida! A mesma missão de Jesus e, por isso, unidos a Ele.

A Confirmação é o sacramento da força de Cristo. Pelo dom do Espírito Santo, o sacramento da Confirmação torna a vida do baptizado mais forte. Por esse motivo é que se fala do sacramento da Confirmação como o sacramento do compromisso eclesial. Deus confirma a graça de baptizado e o cristão confirma a fé assumida no baptismo.

Sendo um sacramento (sinal da acção de Jesus Cristo num momento concreto da vida de um crente), a Confirmação ajuda ao compromisso cristão no mundo. De certa maneira é o sacramento de uma determinada maturidade cristã que se assume com as suas consequências. Significa que aceitamos ser – pelas nossas acções e palavras – a visibilidade do amor de Deus à humanidade. E isso tem valores concretos – os do Evangelho!

4. Sacramentos de cura (Reconciliação e Unção dos enfermos)

Os caminhos da vida não são lineares: não se vai sempre na mesma direcção, à mesma velocidade, com a mesma motivação e intensidade. Em cada opção há momentos de luzes e momentos de sombras. Mas como um caso não põe em causa um projecto, há a possibilidade, a cada passo, de ler a nossa história e de redefinir as nossas direcções e as opções.

O sacramento da reconciliação ou da penitência dá ao cristão a possibilidade de renovar os laços da sua relação a Deus, laços que estejam destruídos ou enfraquecidos como consequência de acções e decisões suas. Aceitando, diante de Deus, as fraquezas e fragilidades pessoais, os erros e pecados, os excessos ou infidelidades, aprendemos a conhecermo-nos melhor e aprendemos a necessidade de saber fazer escolhas e a ter ideais.

Cada cristão que celebra este sacramento reconcilia-se com Deus, com os irmãos e consigo mesmo. É por isso que se celebra como sacramento em Igreja. Ao pecar diminuímos ou destruímos a nossa relação a Deus e à Igreja, Corpo de Cristo e comunidade cristã. Quando celebramos a reconciliação, somos readmitidos, re-acolhidos por Deus e pela comunidade que é Corpo de Cristo seu Filho. O ministro que o celebra connosco presencializa isso mesmo: “Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E eu te absolvo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amen!”

De certa maneira, celebrar a reconciliação é “baptizar-se” porque é entrar novamente numa relação de aliança com Deus. A reconciliação, como sacramento e como disposição interior de cada cristão, é a experiência de entrar novamente em aliança com Deus.

O sacramento da unção dos enfermos, por seu lado, é o sacramento da força e da fortaleza perante a adversidade, seja ela a doença ou a velhice. Destina-se, portanto, àqueles que, por qualquer motivo sofrem uma provação e necessitam de sentir a força de Deus e a comunhão da Igreja.

Existem hoje muitas e variadas formas de sofrimento que o encontro com a comunidade e com Jesus Cristo pode aliviar e ajudar a ultrapassar. É a Carta de S. Tiago que nos diz “Está alguém doente entre vós? Chame os responsáveis da Igreja e que eles rezem por ele e lhe façam a unção com óleo em nome do Senhor” (Tiago 5, 14 s). Significa que, em Igreja, a força da fraternidade não deixa ninguém sofrer sozinho e que o sofrimento individual é sofrimento comunitário e ocasião da oração fraterna em comum.

O sacramento da unção dos enfermos é pois um sacramento expressão da ternura de Deus em Jesus Cristo. Não é o sacramento dos mortos, mas sim dos vivos, o sacramento que dá coragem de enfrentar as dúvidas, os vazios que, muitas vezes, o sofrimento físico e outros trazem consigo.

5. Sacramentos de serviço (Matrimónio e Ordem)

O matrimónio é a união de um homem com uma mulher sob o olhar de Deus. Ou seja, baptizados que são, a força da sua união e do projecto de vida não pode nunca dispensar Deus da sua realização. Primeiro, talvez, porque têm uma vontade comum de se empenharem num projecto conjunto (projecto reconhecido como suficientemente importante para decidirem comprometer-se entre si a pôr em comum tudo o que são e que realize esse projecto); depois, porque, no amor, para cada um, o futuro tem o rosto do outro (é no futuro que se dá como possível o cumprimento do projecto); e, finalmente, porque, em nome do projecto em vista, aquele homem e aquela mulher declaram-se prontos a confiarem um no outro e a deixarem-se interpelar, modificar e transformar um pelo outro para melhor realizarem o projecto assumido em comum. Para cada um, homem e mulher, o outro é promessa e limite: dá corpo ao sentido do projecto e manifesta os limites da auto-suficiência. Casando-se eles declaram que o mais pessoal da existência de cada um e de ambos é inseparável da sua existência em matrimónio [Cf. Erich FUCHS, O desejo e a ternura (Lisboa: Temas e debates, 1997) 274]. É que é diferente ser um casal ou estar unido em matrimónio.

Os quatro grandes pilares do matrimónio cristão são: liberdade, indissolu-bilidade, fidelidade, abertura ao dom da vida. Unidos pelo consentimento mútuo (“ Eu recebo-te por minha esposa (esposo) e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”) os esposos comprometem-se na construção de uma família. É a renovação do acto de união entre Cristo e a Igreja, a Aliança de Deus com o seu Povo.

O nome de Ordem, no Sacramento da Ordem, vem da antiguidade romana e designa apenas a entrada num “corpo constituído”. A Ordem é assim o “corpo constituído” dos servidores do Povo de Deus que Jesus chamou e uniu a si para a mesma missão.

É dentro da possibilidade salvífica que o Ressuscitado dá a todos os cristãos de fazerem com sua vida o que Ele mesmo fez, que surgirá o que chamamos de sacerdócio ministerial (ministério ordenado): na Igreja, alguns, entre muitos, são constituídos para o serviço de todos os outros. O padre é alguém que entrega a sua vida a Deus por causa dos irmãos.

Cristo é o Único Sacerdote. E realiza o seu Sacerdócio pela entrega de Si mesmo. O ministério presbiteral é também o mesmo que Jesus entregou aos Apóstolos com a missão de evangelizar, conduzir e santificar. E isso significa que, na unidade de presbitério em comunhão com o Bispo, sucessor dos Apóstolos, o ministério ordenado se efectiva à maneira do ministério dos apóstolos, ou seja num dinamismo de evangelização e num Dom total de si mesmo. É assim que o sacerdócio não é um emprego, mas é um estado de vida caracterizado pela consagração de si ao serviço evangélico dos outros.

Este sacramento compreende três graus: o episcopado (bispo), o presbiterado (padre) e o diaconado (diácono) com missões concretas específicas, mas sempre dentro e em comunhão com a missão de toda a Igreja.

6. Desafios e critérios do acesso aos Sacramentos

Um Sacramento não é apenas um rito. É uma celebração, é um encontro com a vida. O homem precisa de celebrar para viver e para se sentir viver. E essa necessidade é experimentada, sobretudo e especialmente, nos momentos decisivos da vida e do viver. São precisamente essas situações, enquanto assumidas e vividas com fé, que dão origem, depois, aos ritos. As coisas importantes e significativas da vida acabam sempre por se ritualizar. Mas antes do rito tem de estar sempre o sentido do rito. Os Sacramentos são a celebração destas “coisas importantes e significativas da vida” a partir do significado que têm em Cristo e à luz do seu mistério.

Quem celebra os Sacramentos? Normalmente, quando se coloca esta questão, pensamos logo em quem tem legitimidade para o acesso aos Sacramentos. Mas a grande e primeira questão não é a de quem está autorizado a celebrar os Sacramentos. A grande questão é a de saber quem está “habilitado” a celebrá-los, ou seja, quem os assume como celebração das “coisas importantes e significativas da vida” a partir do significado que têm em Cristo e à luz do seu mistério, quem faz deles e do seu sentido um projecto de vida, quem os integra num processo de fé e de caminhada cristãs. As regras, que são necessárias, se repararmos bem, são apenas instrumentos pedagógicos de salvaguarda do sentido profundo dos Sacramentos.

Assim, o verdadeiro celebrante de um Sacramento não são as pessoas que o celebram. O primeiro e verdadeiro sujeito celebrante, o protagonista, é Cristo. Juntamente com Cristo que, vivo e ressuscitado, continua a entregar-se, é necessário situar a Igreja inteira que, como Corpo de Cristo vivo e actuante na história, é associada a todas as acções do mesmo Cristo Jesus. É desta forma que toda a Igreja, representada na pequena assembleia da Paróquia ou de uma comunidade, é o segundo sujeito da celebração. Em terceiro lugar encontramos a assembleia concreta que se reuniu para celebrar com as suas funções, serviços e ministérios. E, finalmente, há que considerar como sujeito privilegiado da celebração aquele que “recebe” o Sacramento. É ele, de facto, que tem de ter parte activa na celebração. Por isso se lhe pedem atitudes claras como é a fé, a liberdade, a sinceridade.

Todo o baptizado goza do direito fundamental de receber os sacramentos da Igreja, de ser alimentado com a Palavra de Deus e de ser apoiado com outras ajudas espirituais da Igreja (Cf. Catecismo Igreja Católica, 1269). Mas, previamente a isso, é necessário perceber o que significa e que implicações produz o Baptismo na vida de quem o celebra.

Questões para reflexão:

1.    A tradição da Igreja, longa de séculos, diz-nos que a fé cristã dá ao homem uma medida que não vem do próprio homem mas que lhe vem de Deus (“A medida do amor é não ter medida” S. Bernardo). Mais, a fé cristã diz que só assim é possível não limitar, à partida, o homem na sua vocação e missão. Que relação tem este sentido da fé cristã com os Sacramentos e a sua Celebração quanto a motivações, experiências, disponibilidade para o crescimento, celebração comunitária, consequências na vida quotidiana daquilo que se celebra?
2.    Qual a importância dos Sacramentos na vida dos Cristãos de hoje? E, no contexto da vida actual, com seus problemas e desafios, como estruturar uma Catequese que prepare para os Sacramentos?
3.    A que obrigaria e obrigará uma preparação cabal para a celebração de cada um dos Sacramentos? Que espaço dão as nossas Comunidades (nos seus Cristãos e nos seus pastores) à preparação dos Sacramentos?
4.    Elabore um conjunto de propostas sobre formas de valorização de cada Sacramento em termos catequéticos e de celebração litúrgica.

 


Oração Sinodal

(Para rezar no final de cada reunião do Grupo Sinodal)

Senhor Jesus Cristo,
Bom Pastor,
Caminho, Verdade e Vida,
somos vosso Povo, vossa Igreja.
A vossa Palavra nos congrega e nos reúne,
o Baptismo em vosso Nome nos identifica.
O Vosso Corpo,
feito Pão de cada dia,
nos alimenta.
O vosso perdão nos renova.
A resposta ao vosso chamamento,
a entrega da nossa vida
nos fazem vosso sinal, sacramento e testemunho.

Dai-nos, Senhor, por vosso Espírito,
uma consciência viva dos vossos dons,
uma confiança inabalável na vossa vontade,
uma fidelidade livre no vosso serviço,
uma alegria terna no testemunho do Reino.
Dai, Senhor, à nossa Diocese em Sínodo
a graça de reavivar os vossos dons.
Dai-nos, Senhor,
a força da comunhão na diversidade,
a alegria da harmonia nos projectos,
a ousadia da esperança no confronto da história,
a confiança e a serenidade da fé na adversidade,
a força do caminho feito em conjunto.
Fazei, Senhor,
Que, encontrando em Vós,
A rocha firme do nosso alicerce,
Manifestemos com a vida
A beleza dos vossos dons.

E que Santo António, nosso Padroeiro,
Homem de coração profundo
E sinal de unidade;
E vossa Mãe Santíssima,
A nossa Mãe do Céu e de todas as horas e momentos,
Nos ajudem a saborear a felicidade e a alegria
de sermos vossos discípulos
E nos guiem sempre
Para Vos darmos a conhecer ao mundo.
Amen.
 

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