Dia Mundial das Misses

Homilia de D. Antonino Dias


NISA - 23/10/2011

(Eucaristia transmitida pela TVI)

 

A organização da sociedade e a convivência entre as pessoas supõe sempre regras de conduta e referências éticas.

Assim foi também na história do Povo de Israel.

No Deuteronómio constam mais de 600 regras a que os israelitas deveriam prestar atenção.

Moisés, no caminho do Deserto, subiu ao monte Sinai e recebeu as tábuas da lei, com apenas 10 mandamentos.

Era o essencial para guiar o povo pelos caminhos da liberdade.

Ali estavam os grandes princípios (poucos) para orientar a vida de relação com Deus e de uns com os outros.

Não contentes com isso, a casuística dos judeus fez aumentar o número das normas ao ponto de, no tempo de Jesus, serem cerca de 613 as leis.

Para além do mal-estar que tanta lei gerava, ainda dava azo ao farisaísmo radical, perante o qual Jesus Cristo teve de afirmar que a lei foi criada para o homem e não o homem para a lei.

Talvez pela falta desse princípio unificador capaz de centralizar e dar sentido à vida, certo dia, um jovem aproximou-se de Cristo e perguntou-lhe:

- Mestre, que hei-de fazer para entrar na vida eterna, para ser feliz?

- Vai e cumpre os mandamentos….

Jesus não lhe cita os 613, nem sequer os 10. Cita-lhe somente 6: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falsos testemunhos, honra teu pai e tua mãe, ama o teu próximo como a ti mesmo (Mt 19, 16).

Noutra ocasião, conforme ouvimos no Evangelho de hoje, um doutor da lei, também fez uma pergunta a Jesus:

- Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?

Jesus cita-lhe somente 2: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas (Mt 22,34…).

Mais tarde, nas vésperas da sua Paixão, Jesus Cristo volta-se para os discípulos e diz-lhes:

- Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Por isso é que conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros como eu vos amei.

Jesus fala somente de 1: Dou-vos um mandamento novo (Jo 13, 34…).

Novo? Não, não era novidade. Mas Jesus dá-lhe um novo sentido e uma medida nova. A medida é Ele próprio que ofereceu a sua vida pela redenção de todos: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.

Na verdade, este é o núcleo central da mensagem evangélica: o amor. E o amor preferencial pelos pobres.

Em toda a Bíblia Deus toma sempre partido a favor dos oprimidos, dos órfãos, dos sem pátria, dos pobres.

Jesus Cristo faz o mesmo. E a opção que Ele faz pelos pobres não é por eles serem melhores que os outros. É porque são pobres, porque são necessitados, porque vivem situações difíceis, porque estão sujeitos à exploração dos poderosos, sofrem a descriminação de uma sociedade organizada na base da corrupção, da injustiça, da desigualdade. Precisam de alguém que lhes dê a mão e a voz. De alguém que os ajude e liberte.

A primeira leitura chama-nos a atenção precisamente para isso. E lembra ao Povo de Deus a opressão que suportou no Egipto e a luta que teve de travar para chegar à libertação, para que, agora, saiba ele acolher bem as vítimas que sofrem da opressão e da injustiça: os pobres, que não podem ser explorados, mas ajudados.

Hoje continuam a ser muitas e variadas as formas de pobreza. A falta de formação cristã, inclusive entre os cristãos, é também uma das formas de pobreza a exigir muita “fantasia da caridade” e uma “nova cultura de evangelização”.

É que dar a conhecer a Pessoa e a mensagem de Jesus Cristo, não é somente uma informação importante. É também dar a conhecer as raízes da própria dignidade da pessoa e a força subversiva capaz de transformar a sociedade em comunidade fraterna e solidária. É libertar. É promover.

A comunidade de Tessalónica, apesar de ter recebido a palavra no meio de muitas tribulações, assim o entendeu. Por isso, fez progressos extraordinários ao ponto de ser exemplo e estímulo para outras comunidades vizinhas, tornando-se também ela anunciadora de Jesus Cristo. Na verdade, quem se encontra verdadeiramente com a Pessoa de Jesus Cristo não consegue viver sem partilhar esse dom e sem anunciar, pela palavra e pelo testemunho, que Jesus Cristo, vive, actua e está presente na sua Igreja, em cada um de nós … e nos outros.

Celebramos hoje o dia Mundial das Missões. Com tal celebração queremos tornar presente que a Evangelização é o fundamento de tudo, nada a pode substituir, nada se lhe pode antepor. “É a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda.” (EN14). A sua razão de ser.

Fazendo remontar a missão cristã ao mistério do amor de Deus pelo mundo e ao mandato pessoal de Jesus Cristo, o Santo Padre deu-nos o mote para este dia: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós”. Bento XVI acentua que o anúncio do Evangelho é “o serviço mais precioso que a Igreja pode prestar à humanidade”; “empenha todos, tudo e sempre”. “Não é um bem exclusivo de quem o recebeu. É um dom a partilhar, uma boa notícia a comunicar. Não pontualmente, mas “de maneira constante, como forma de vida cristã”.

Evangelizar é amar. Deus amou-nos primeiro, ao ponto de enviar o Seu Filho (Evangelho de Deus) que foi o primeiro e o maior dos evangelizadores, até ao fim, até ao sacrifício da sua própria vida (EN7).

Quem ama sente-se também no dever de evangelizar neste estilo do Bom Pastor que, “descendo ao nível de cada um” e “dedicando a cada um a dedicação toda” procura e chama os que andam afastados e dispersos, cuida e conduz os que estão próximos (cf. CEP, 6).

Embora toda a Igreja seja missionária, este dia também nos convida a dar graças a Deus por todos quantos, saindo das suas comunidades cristãs, partiram e partem por esse mundo além, a anunciar a Boa Nova do Senhor Jesus Cristo.

Entre outros, recordo o Beato Diogo Pires Mimoso, Jesuíta, um dos quarenta mártires do Brasil, martirizado em 1570, natural desta comunidade de Nisa, Alto Alentejo. Nele, recordo todos os outros, homens e mulheres, jovens e adultos, que, hoje, em diversas frentes, anunciam com alegria e esperança o Evangelho de Jesus Cristo, tantas vezes em situações dificílimas e adversas. Eles representam “o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de impulsos novos e corajosos”(RM 66). Não podemos esquecer também o trabalho discreto que tanta gente desenvolve em ONGs de diversa natureza, bem como em projectos de voluntariado, que também exigem renúncias e compromisso. Uns e outros são estímulo para todos nós e orgulho das suas comunidades de origem que assim manifestam a sua atenção ao mandato de Jesus Cristo de ir e anunciar. Não pode ir a comunidade inteira. Mas envia alguém, de entre os seus e em seu nome, a levar as razões da sua própria esperança enquanto, na comunidade, todos se sentem missionários, a começar dentro de sua própria casa, através da oração, da palavra, do testemunho, da partilha e no compromisso para a transformação das realidades terrenas.

Esta Diocese de Portalegre-Castelo Branco, encontra-se em Sínodo. Sentimos necessidade de ouvir, envolver e empenhar a Diocese para que, do conhecimento das situações e do confronto das ideias, sejamos capazes de, conjuntamente, descobrir e ousar caminhos novos que Deus, através do seu Espírito, nos vá apontando para se manifestar e se fazer encontrar. Entre tantos trabalhos e preocupações que o desenvolvimento do Sínodo nos vai apresentando, vamos reconhecendo, na verdade, que o mais importante e urgente “é ainda e sempre a missão” (Bento XVI, Porto, 2010). “Só a missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade e lhe dá um novo entusiasmo e novas motivações” (RM 2). Sentimos necessidade de um novo fôlego missionário.

Confiantes e implorando o auxílio do Divino Espírito Santo, protagonista da evangelização, caminhamos em busca de novos caminhos de evangelização, atendendo à nossa realidade concreta, de pessoas concretas e com problemas concretos, dentro da qual somos chamados a incarnar e a viver hoje, com o encanto e a convicção dos missionários da primeira hora, o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo, que, mais do que programas e tarefa, é paixão e vida, despojamento e serviço, testemunho e diaconia libertadora, “a partir de Cristo, com Cristo, como Cristo”.

Que o Senhor nos dê a graça do despojamento de nós próprios. Nos ajude a mudar as práticas rotineiras e aquela mentalidade que, resistindo à mudança, se torna obstáculo ao novo vigor, à nova linguagem, aos novos métodos e às novas expressões.

Só a graça da conversão nos transformará “em testemunhas de Cristo Ressuscitado no nosso ambiente e em toda a parte”. (CEP 13).

 

 

Antonino Dias

Bispo de Portalegre-Castelo Branco

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